DIA DO MAÇOM: VERDADES E INVERDADES A RESPEITO DO 20 DE AGOSTO

O autor, Irmão Hercule Spoladore é membro da Loja de Pesquisa Maçônica “BRASIL” de Londrina – Pr, é escritor, historiador e maçom brasileiro.

A ideia de que fosse criado o Dia do Maçom, nasceu em Março de 1957 através da Loja “Acácia Itajaiense” de Itajaí – SC que propôs à Grande Loja de Santa Catarina, que fosse criado um dia para a referida comemoração, na jurisdição. Em principio propuseram o dia 21 de Abril por ser o dia da fundação da Grande Loja do Estado.A proposição foi apresentada na plenária da 5ª Mesa Redonda das Grandes Lojas realizada no Pará em 20/06 naquele ano, porem sem determinar qual seria a data. A Grande Loja de Minas Gerais então indiciou o dia 20 de Agosto, por ter sido nesta data em 1822, proclamada a Independência do Brasil dentro de um templo maçônico. A moção foi aprovada.

As Mesas Redondas que as Grandes Lojas realizavam antigamente, hoje chamam-se Assembléias da Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil (CMSB). São reuniões de representantes de todas as Grandes Lojas autônomas do país que se realizam cada ano em um Estado e esta Entidade tem fins representativos, porem em realidade tomam decisões importantes de interesse geral de todas as Grande-Lojas. Muito embora, a decisão tenha partido apenas por parte de uma Obediência, a idéia generalizou-se e hoje todo o maçom do Brasil tem para si o 20 de agosto como o Dia do Maçom. Até ai nada de demais, Todo e qualquer dia é o Dia do Maçom. Para representá-lo poderia ser o 20 de agosto ou qualquer outro dia.

Mas a verdade histórica da data é outra. No dia 20 de Agosto de 1822, nem sequer houve sessão no Grande Oriente Brasiliano, ou Brasílico.

Toda confusão surgiu devido a uma interpretação errada do Barão do Rio Branco, copiando Manoel Joaquim de Menezes (Irmão Penn) que foi contemporâneo aos fatos, seguida e divulgada por muitos compiladores tais como Tenório D’Albuquerque, Pandiá Calógeras, Otaviano Tarquínio de Souza, Assis Cintra, Gustavo Barroso, Oliveira Lima e outros, que usaram o calendário do Rito Moderno. Especialmente A. Tenório D’Albuquerque, escritor maçônico das décadas de 1940-50 que difundiu uma série de fatos e conceitos completamente errôneos, cujos livros ainda envenenam muitas bibliotecas maçônicas. Entretanto, alguns historiadores como Vargnagen na sua obra “História da Independência” 5ª Edição a página 136 faz referência ao dia 09 de Setembro e não 20 de Agosto; Mello Moraes no livro “Brasil Histórico” (1864); Pereira da Silva no livro “História da fundação do Império Brasileiro” 1864/67) alem de outros autores que realizaram a pesquisa histórica correta, contradizem os autores citados, com relação à falsa data.

O Barão do Rio Branco tomou como o 1° dia do calendário maçônico como sendo o 01º dia Março (calendário do Rito Moderno) e traduziu que a Sessão de 20º dia do 6º mês do Ano da Verdadeira Luz de 5822, como sendo realizada no dia 20 de Agosto de 1822, sessão esta dirigida por Gonçalves Ledo na qual apresentou uma moção na qual o seu teor falava abertamente em Independência do Brasil. Esta Sessão em realidade foi realizada no dia 09/09/1822.

O Grande Oriente Brasiliano ou Brasílico foi fundado no (28º dia do 3º mês) 17/06/1822 (e não em 27/05/1822), no Rito dos 07 Graus (Rito Moderno, conforme está escrito em várias das 19 Atas que fazem parte do Livro de Ouro da Maçonaria Brasileira). Foi fundado no Rito Moderno para não ter qualquer ligação com o Grande Oriente Lusitano que praticava o Rito Adonhiramita. A fundação do Grande Oriente Brasiliano, Brasiliensi, ou Brasílico era um pano de fundo, pois sua principal missão era a Independência do Brasil. Era, portanto uma potência revolucionaria em realidade. A Loja “Comércio e Artes” na época da fundação do Grande Oriente Brasiliano praticava o Rito Adonhiramita. Esta tinha 95 Irmãos em seu Quadro, subdividiu-se por sorteio em três Lojas para dar suporte legal para a fundação de um Grande Oriente. As duas outras Lojas fundadas foram “Esperança de Niterói” e “União e Tranqüilidade” ficando a “Loja Comércio e Artes” com os remanescentes acrescentando ao seu nome o termo “da Idade do Ouro” (“Comércio e Artes da Idade do Ouro”).

O Grande Oriente Brasiliano apesar de ter sido fundado no Rito Moderno ou Francês, os Irmãos que fundaram o Grande Oriente eram do Rito Adonhiramita, da Loja “Comércio e Artes” que o usava desde 1815. Ao fundarem o Grande Oriente, trouxeram para o mesmo alem de outros, dois procedimentos próprios do Rito Adonhiramita: o codinome histórico usado pelos Irmãos e o Calendário, mas não do Rito Moderno.

O calendário usado pelo Rito Adonhiramita era muito semelhante ao calendário hebraico religioso cujo 1º dia ano é 21/03 (Nissan) e este foi usado pelo Grande Oriente Brasiliano em seus primórdios. No calendário hebraico se adiciona o n° 3.760 ao ano normal vigente e o calendário usado pelo Rito Adonhiramita se acrescentava ao n.º 4.000 por se acreditar que o mundo havia sido criado 4.000 a.C. conforme está escrito na Bíblia em Gênesis, chamada esta, a era da Verdadeira Luz. Outra diferença é que no calendário hebraico a cada 19 anos tem um 13°mês, o We-Adar o que não ocorre no calendário do Rito Adonhiramita.

Este calendário Adonhiramita foi também chamado de pseudo-hebraico, por Kurt Prober. Interessante que o Grande Oriente da França, onde se pratica até a presente data o Rito Moderno, através de circular de 12/10/1776 havia determinado que o seu calendário iniciasse em 01/03, para evitar confusão que o calendário iniciado em 21/03 ocasionava. Entretanto, está provado que o Grande Oriente Brasiliano usou o calendário Adonhiramita no seu início. É só pesquisar com cuidado que provas existem bastante transparentes.

Mello Moraes, em 1861 que alem de escritor era maçom grau 33 e Grande Orador da Obediência, solicitou uma certidão das atas do Grande Oriente Brasiliano, agora nominado a partir de l831 (após sua reinstalação) como Grande Oriente do Brasil e a obteve datada de 12/08/1861 onde consta alem de outras informações que: “QUE A ACTA DA SESSÃO DE 20 DO 6º MEZ DO MESMO ANNO 1822 (9 DE SETEMBRO) CONSTA NÃO SÓ TENDO SIDO CONVOCADOS OS MAÇONS MEMBROS DAS TRÊS LOJAS METROPOLITANAS PARA ESTA SESSÃO EXTRAORDINARIA, COM O ESPECIFICADO FIM ADIANTE DECLARADO, SENDO TAMBÉM PRESIDIDA PELO SOBREDITO 1º GRANDE VIGILANTE JOAQUIM GONÇALVES LEDO, NO IMPEDIMENTO DO GRANDE MESTRE JOSÉ BONIFÁCIO, DIRIGIDA DO SÓLIO UM ENERGICO EFUNDADO DISCURSO DEMONSTRANDO COM AS MAIS SÓLIDAS RASÕES, QUE AS ACTUAIS POLITICAS CIRCUNSTANCIAIS DE NOSSA PATRIA, O RICO FERTIL E PODEROSO BRAZIL, DEMANDAVAM E EXIGIAM IMPERIOSAMENTE QUE A SUA CATHEGORIA FOSSE INABALAVELMENTE FORMADA COM A PROCLAMAÇÃO DA NOSSA INDEPEDENCIA E DA REALEZA CONSTITUCIONAL NA PESSOA DO AUGUSTO PRINCIPE PERPÉTUO E DEFENSOR DO REINO DO BRAZIL. (ASSINADA A CERTIDÃO PELO MARQUES DE ABRANTES, ENTÃO GRAO-MESTRE DO GRANDE

ORIENTE DOBRASIL).

Na Sessão em que foi apresentada esta moção de Ledo ela foi aprovada por unanimidade.

Como todos sabem, como é versão corrente, na presença de várias testemunhas D. Pedro proclamou a Independência no dia 07 de Setembro em São Paulo nas margens do riacho do Ipiranga. (esta é outra história).

Ledo desconhecia o fato, e dois dias após fez o seu pronunciamento, quando comandava a 14ª Reunião da Assembléia Geral do Povo Maçônico, realizada no 20º dia do 6º mês do Ano da Verdadeira Luz de 5822, ou seja, no dia 09 de Setembro de 1822, cujo ano maçônico havia iniciado no dia 21 de Março daquele mesmo ano.

Está provada desde 1861 através de uma certidão fornecida pelo próprio Grande Oriente do Brasil a verdadeira data da Reunião de 09 de Setembro. Não houve reunião no dia 20 de Agosto de 1822.

Convém ressaltar que Ledo não proclamou nossa Independência como tantos maçons fanáticos propalam. Ele propôs uma moção numa Assembléia dentro do Grande Oriente que foi aprovada por unanimidade, como tantas outras são aprovadas nos interiores de nossos templos. Entre a realização dos termos de uma moção aprovada e a realização política da mesma há às vezes um abismo muito grande. A maioria das vezes o que se aprova dentro de uma Loja não sai do papel. Aliás, é comum acontecer isto na Maçonaria brasileira. É evidente que na ocasião, tudo conspirava quer dentro, quer fora da Maçonaria para que a Independência ocorresse. A moção de Ledo foi um passo a mais, ainda que com dois dias de atraso. Era um processo histórico complexo que havia iniciado com a vinda da Família Real de Portugal para o Brasil e estava tendo naquele momento, o seu epílogo com uma participação maçônica muito grande já que o envolvimento era tota da Maçonaria não só de maçons, mas também como Instituição, no processo libertário do Brasil.

Na 15ª Reunião do dia 14/09/1822 e não 12/09/1822 (25°dia do 6°mês), A Assembléia tratou na Ordem do Dia, após a advertência em Loja feita a um Irmão, por sinal o frei Francisco Sampaio, por escrever contra os princípios da Ordem num periódico de sua propriedade o “Regulador”, Ledo após perdoar lhe lhe deu o abraço e o ósculo fraternal.

Neste mesmo dia D. Pedro regressou de São Paulo em lombo de mula, muito cansado, foi dormir. No dia seguinte, se a cidade do Rio de Janeiro ainda não soubesse do fato, pelo menos os altos dirigentes políticos e os maçons já o sabiam.

Na 16ª Sessão de 28/09/1822 (8° dia do 7º mês) José Bonifácio então Grão-Mestre recebeu o 6° grau do Rito Moderno (Cavaleiro do Oriente) devendo receber o grau de Rosa-Cruz na próxima Sessão, porem jamais o receberia. Através de manobras políticas dentro da Ordem, Ledo provavelmente entre os dias 29 de setembro e 04 de Outubro fez com que fosse feita a “eleição” de D. Pedro para Grão-Mestre.

Na 17ª Sessão de 04/10/1822 (14º do 7º mês), o 1º Grande Vigilante Ledo mais uma vez comandando a Sessão expôs que esta tinha a finalidade de ser feita a prestação do juramento do Irmão D. Pedro (Guatimozim) aclamado como Grão-Mestre. E este assim o fez e foi conduzido a tomar a presidência. Foi um verdadeiro golpe em José Bonifácio que era até então o Grão-Mestre.

Nesta mesma Sessão a Comissão encarregada dos festejos da Aclamação apresentou o programa consistindo em cinco Arcos e sua colocação, e resolveu-se que as despesas fossem feitas por subscrição dos maçons.

A 19ª Sessão de 11/10/1822 (21º dia do 7º mês de 5822) realizada às vésperas da Coroação e Aclamação no dia dirigida por D. Pedro tratou-se de assuntos administrativos, Devido às intrigas palacianas, D. Pedro no 21/10 ordena que seja fechado o Grande Oriente para averiguações e no dia 25 de Outubro de 1822 (05° dia do 8º mês de 5822) Ledo manda que seja lavrado o termo de encerramento.

O Grande Secretário do Grande Oriente, Irmão Manoel José de Oliveira (Bolívar) guardou em lugar secreto e seguro esta preciosidade da Maçonaria Brasileira, ou seja, o livro de atas deste período de ouro da nossa história, até que os fatos serenassem para o teor destas atas pudessem vir a ser publicado.

CALENDÁRIO ADONHIRAMITA (USADO EM 1822) CALENDÁRIO PSEUDO-HEBRAICO

Difere do calendário hebraico, porque a este se acrescenta o número 3760 e no ao calendário gregoriano e no Adonhiramita acrescenta-se o número 4000. O calendário Adonhiramita não tem o 13° mês (We-Adar) que aparece a cada 19 anos no calendário

hebraico

1º mês NISAN de 21 de Março a 20 de Abril

2º mês YAR de 21 de Abril a 20 de Maio

3º mês SIVAN de 21 de Maio a 20 de Junho

4º mês THAMUZ… de 21 de Junho a 20 de Julho

5º mês AB…………… de 21 de Julho a 20 de Agosto

6° mês ELUL de 21 de Agosto a 20 de Setembro

7º mês THISRI…….. de 21 de Setembro a 20 de Outubro

8º mês MARSHEVAN de 21 de Outubro a 20 de Novembro

9º mês KISLEV de 21 de Novembro a 20 de Dezembro

10º mês…THEBET de 21 de Dezembro a 20 de Janeiro

11º mês SCHEBT de 21 de Janeiro a 20 de Fevereiro

12ºmês ADAR de 21 de Fevereiro a 20 de Março

Bibliografia

ARÃO, Manoel “ A HISTÓRIA DA MAÇONARIA NO BRASIL”

Recife, 1926 – (Livro não publicado)

CASTELLANI, José “JOSÉ BONIFÁCIO”

Um homem além do seu tempo

Ed. “A Gazeta Maçônica” – São Paulo ,1988

CASTELLANI, José “HISTÓRIA DO GRANDE ORIENTE DO BRASIL”

A MAÇONARIA NA HISTÓRIA DO BRASIL Gráfica Editora Maçônica do Grande Oriente do Brasil Brasília – 1993

FAGUNDES, Morivalde C. “A MAÇONARIA E AS FORÇAS SECRETAS DA

REVOLUÇÃO.

Ed. Gráfica “Aurora” Ltda. – Rio de Janeiro, 2ªed.

PROBER, Kurt “ACHEGAS PARA A HISTÓRIA DA MAÇONARIA NO BRASIL” Isa Ch’an Ed.? São Paulo – 1968

BOLETINS DO GRANDE ORIENTE DO BRASIL

NÚMEROS 06, 07,08, 09, 10 RESPECTIVAMENTE DE JUNHO,JULHO,

AGOSTO, SETEMBRO, OUTUBRO DE 1923.

BOLETIM N.º 08 DE OUTUBRO DE 1901 DO GRANDE ORIENTE DO

BRASIL

TRABALHOS: “DIA 20 DE AGOSTO DE 1822 – NÃO HOUVE SESSÃO NA

MAÇONARIA” José Castellani

“ 20 DE AGOSTO OU 09 DE SETEMBRO” Manoel Gomes

“DIA 20 DE AGOSTO DE 1822 – EQUÍVOCO HISTÓRICO” João Alberto de Carvalho.

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