O GOB nasceu no Rito Moderno?

Todos nós costumamos aceitar como “favas contadas” que o Grande Oriente do Brasil teria sido FUNDADO no RITO ADONHIRAMITA, em 17.6.1822. Mas de onde o sabemos? …

Por mais que se procure, aqui e acolá, de positivo nada se encontra, pois “documentos da época” não existem, e as tradições…em que os escritores do passado se louvam, não são confiáveis. Além disso as “histórias” por eles produzidas, como p.e. a do Ir.·. PENN (Manoel Joaquim de Menezes) – “Exposição Histórica da Maçonaria no Brasil” – 1857 (nota 1), a do Ir.·. Alexandre José de Mello Moraes – “História do Brasil-Reino e Brasil-Imp ério” – 1871, as “Efemérides” do Barão do Rio Branco, e ainda as publicações de “Varnhagen”, “Pereira da Silva”, “Tobias Monteiro” e outros, são todas elas memórias, entretanto, incorretas em muitas datas e redundâncias, de modo que não podem servir de “pedra de toque”. Via de regra todos estes historiadores “contam um conto” e, para fazer os “acertos”… no tempo e no espaço, “aumentam um ponto”.

Vejamos: -Mello Morais no Tomo I, pag. 16, nos conta a origem da Loja “DISTINCTIVA”, em S. DOMINGOS da Praia Grande (na Freguezia de São Gonçalo) – (nota 2), NÃO FALANDO EM RITO, mas já o Ir.·. PENN é sumário quando diz, à pag. 5: “…que TÔDAS AS LOJAS MAÇÔNICAS DO RIO, BAHIA E PERNAMBUCO, umas instaladas sob os auspícios do Gr.·. Or.·. Luzitano, outras do Gr.·. Or.·. de França, e algumas independentes, ERAM DO RITO ADONHIRAMITA…” …Onde teria bebido sua sapiência?…

E quando João Luiz Teixeira Pinto em 1961 edita o seu magnífico livro “A Maçonaria na Independência do Brasil”, ele simplesmente copia Mello Morais na parte da Loja “Distinctiva”, e segue dizendo (pag. 14) que: “…FUNDARAM EM 15.11.1815 na casa do Dr. João José Vahia, à rua da Pedreira da Glória (hoje rua Pedro Américo) uma Loja com o título distintivo de “COMÉRCIO E ARTES”, ADOTANDO O RITO ADONHIRAMITA e funcionando sob os auspícios do Gr.·. Or.·. Luzitano etc…”.

Logo a seguir, na pag. 16, ele transcreve um documento publicado no Boletim do GOB de 1896, pag. 37/39, que é a ATA DE INSTALAÇÃO DA LOJA “COMMERCIO E ARTES”, de 24.6.1821, ATA ESTA QUE NÃO FALA EM RITO e deixou bem claro, que a Loja REINSTALADA NÃO MAIS QUIZ “declarar-se sob a jurisdição do Gr.·. Or.·. Luzitano”.

Acontece que Teixeira Pinto nesta transcrição, POR INICIATIVA PRÓPRIA, resolveu completar a “…DATA da instalação primitiva, citada no documento, como – DE NOVEMBRO DE 1815 – para (segunda-feira) 15 de novembro de 1822. Onde teria encontrado o dia “15”, mesmo porque este dia não era uma segunda-feira, e sim uma quarta-feira”.

Na realidade, a fundação da Loja “Commercio e Artes” (a primeira das cinco que já existiram – veja coletânea A Bigorna – 1984, pags. 116/117) tinha “acontecido” em 24.6.1815, resultando da fusão das Lojas “CONSTÂNCIA” e “PHILANTROPIA”, conforme notas encontradas pelo Ir.·. Ariovaldo Vulcano.

Fundou-se o Gr.·. Or.·. BRASÍLICO em 17.6.1822, e relendo-se cuidadosamente as Atas das SSess.·. 1 até 4, não se encontra uma palavra sobre RITO. Só em 12.7.1822 (5ª Sess.·.) surge uma proposta de elevação de 6 IIr.·. ao Gr.·. de ELEITO SECRETO – que é o Gr.·. 4 do RITO MODERNO – e mais adiante se diz, falando de elevações de outros IIr.·. merecedores: “…mandando recommendar a Gr.·. Loj.·. a este IIr.·. que se lembrem de que, ADOPTADA A MAÇONARIA DOS SETE, o Gr.·. de Mestre torna-se um Gr.·. muito respeitável e poderoso, e que, se elles têm verdadeiro amor pela nossa Ord.·. devem querer que vá mais lenta esta concessão de Ggr.·. para se tornarem não só mais appetecíveis, como mais valiosos, para retribuirem o zelo e as virtudes maçônicas daquelles IIr.·. que mais se distinguirem…”

E mais adiante: “…Que os OOper.·. das 3 LLoj.·. Metropolitanas que t êm o Gr.·. de Mestre Perf.·. e 1º Eleitos (eram os Ggr.·. 4 e 5 do Rito Adonhiramita) QUE FICARAM ABOLIDOS PELA NOVA ADOPÇÃO, devem dirigir-se à commissão que brevemente nomeará a Gr.·. Loj.·. e fará saber para a concessão de Ggr.·. a fim de receberem o de ELEITOS SSECRET.·.”.

Vejamos bem. Falando a ata de “ADOPTADA A MAÇONARIA DOS SETE”, como “águas passadas”, e nunca se tendo antes falado em RITO, e n ão constando das atas nenhuma “NOVA ADOPÇÃO” específica, é mais do que lógico que o RITO MODERNO TENHA SIDO ADOTADO NA FUNDAÇÃO DO GR.·. OR.·. BRASÍLICO.

Na 7ª Sess.·., de 23.7.1822, aparecem outras propostas para elevação de IIr.·. ao Gr.·. 4 do Rito Moderno, e nesta mesma reuni ão, que por sinal era a SEGUNDA em que José Bonifácio se dignava aparecer, se resolveu “…unanimemente dar o Gr.·. de ROSA CRUZ (7º do Rito Moderno) ao Gr.·. Mest.·. José Bonifácio…”.

Na Sess.·. seguinte, Extraordinária de 2.8.1822, aparecia José Bonif ácio pela terceira vez no GOB, para iniciar o Príncipe Regente D. PEDRO, com o nome heróico de GUATIMOSIM.

Devo esclarecer aqui que o USO DE “NOMES HERÓICOS” NÃO ERA PRIVATIVO DO RITO ADONHIRAMITA, como querem fazer crer os “propagandistas hoje do rito”. Era um hábito adotado para os maçons se livrarem das persegui ções da inquisição e outras, e de passagem posso provar que até hoje este uso está arraigado até no Supremo Conselho do REAA de Portugal.

Basta dizer que o meu Diploma de S.G.I.G. Gr. 33.·. HONORÁRIO do Supr.·. Cons.·. de Portugal, de 7.12.1978 é assinado pelo S. Gr. Com. “GRACCHUS” (Ir.·. Dr. Adelino da Palma Carlos), pelo Gr.·. Secret.·. “JOÃO DE SANTARÉM” (Ir.·. Henrique Côrte Real) e pelo Min. de Estado “MESTRE DE AVIS” (Ir.·. Armando Adão e Silva).

E creio poder terminar esta ESTÓRIA do Rito Adonhiramita transcrevendo um trecho da ata da 10ª Sess.·. de 5.8.1822: “…ponderou o Ir.·. Presidente, por parte da Commissão nomeada para conceder os altos Ggr.·., que havendo a Gr.·. Loj.·. accordado dar o Gr.·. de ELEITO SECRETO aos IIr.·. filiados nos nossos quadros, constituídos em em ggr.·. de MMestr.·. Perf.·. 1º 2º e 3º Eleitos pela Maçonaria do 13 e também áquelles mmestr.·. que pelo seu zêlo e amor pelo bem da Pátria e da nossa Subl.·. Ord.·. se tinham tornado dignos de ser adiantados na Arte Real, era por ora impossível satisfazer a tão justas resoluções, porque tendo a Maçonaria dos 7 reduzido os ggr.·. desde Mestr.·. Perf.·. até Eleito dos 15 ao ELEITO SECRETO, não havia os necessários reguladores para a Iniciação deste Gr.·. E a Gr.·. Loj.·. não podendo, de maneira alguma, alterar quaisquer das fórmulas adoptadas, que formeam essencialmente o systema dos 7 Gr.·., resolveu o seguinte: Que ficasse suspensa a iniciação no gr.·. de Eleito Secret.·.; que na mesma ocasião em que o Gr.·. Or.·. Brasílico se fizesse reconhecer do Gr.·. Or.·. Britannico, encarregasse ao seu Deleg.·. naquele Or.·. da remessa de todas as instrucções e papeis concernentes ao systema maçonico dos 7 Ggr.·., adoptado pelo Gr.·. Or.·. Brasílico; que deste reconhecimento se tratasse com toda a brevidade; que se mandasse Carta de Deleg.·. ao maçom HYPPOLITO.

Aliás, ainda nesta reunião “accordou a Gr.·. Loj.·. DAR O GR.·. DE MESTRE AO IR.·. GUATIMOSIM e foi encarregado de l’ho conferir o Ven.·. da Loj.·. Commercio e Artesm a cujo Quadro pertence…”

Vale a pena aqui acrescentar que o Ggr. ·. do Rito Adonhiramita Mestr.·. Perf.·. – 4, 1º Eleito (dos 9) – 5, 2º Eleito (de Parpignan) – 6 e 3º Eleito (dos 15) – 7, todos eles passariam a corresponder ao Gr.·. 4 do RITO MODERNO.

Trocando tudo isso em miúdos, chegamos à conclusão, e creio ter liquidado a discussão de um vez por tôdas, que: O GR.·. OR.·. DO BRASIL FOI, EM 14.6.1822, FUNDADO NO RITO MODERNO, e que tudo o mais é conversa fiada.

 

Fonte: A Bigorna – Boletim Noticioso e Novidadeiro – nº 69 – fevereiro de 1 983 – Kurt Prober 

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